quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Da dor de perder e da alegria de encontrar







Muita coisa se perde na tradução. E não apenas de um idioma para o outro, mas também (e principalmente) de uma pessoa para a outra. E quando não é mais possível confiar em palavras ou atitudes, o que resta é o instinto de registrar e interpretar o fugaz, o inefável.
Conseguir enxergar beleza nessas situações transitórias, nesses perdidos rumos que traçam muitos caminhos, nessa doce melancolia de se sentir tão só que aquilo que nos une a outra pessoa é a solidão compartilhada é, talvez, uma das qualidades mais inegáveis de ENCONTROS E DESENCONTROS.
A câmera de Sofia Coppola tem um certo ar etéreo, uma certa leveza acidentada, um peso que quase não se sustenta em tanta sutileza: tal é o peso sobre os ombros de Bob Harris e Charlotte, protagonistas do segundo trabalho da diretora para o cinema.
Muito fácil enxergar que os dois são um corpo estranho na acelerada e confusa Tóquio, que o idioma é inconciliável, que os fuso horários são impossíveis. Muito mais doloroso é perceber que mais estranho eles são ainda às suas rotinas conjugais, no seu país de origem, entre seus amigos de anos. E (in) conscientemente um reconhece no outro esse fino desespero por uma companhia verdadeira, por um silêncio confortável. Em Tóquio se torna insuportável (ainda assim suportável) as coisas como são (e não a vida como está); do tédio que os lembra insistentemente de um aterrador vazio à forçada e dispendiosa comunicação com os seus.
E tudo isso poderia ser nada, mas então temos Sofia Coppola. Sua visão de mundo (a câmera) se interessa por aqueles que adorariam se encaixar em um mundo que lhes parece apropriado para sua existência, e expressa como é doído a constatação que esse encaixe não será possível. Mas a diretora enxerga beleza nos pequenos momentos de tentativa de uma interação verdadeiramente humana: seja ela uma noite de bebedeiras que termina em um videokê, seja uma conversa sonolenta sobre viver, casar, ter filhos e se acomodar. O olhar de Sofia é perdido, porque não sabe onde está exatamente aquilo que procura, daí tantas críticas a acusarem de uma direção “relaxada” e “sem propósito”. Mas é indispensável que se entenda que o que a interessa é, justamente, essa procura que insiste em nunca cessar, porque isso implicaria na última grande desistência, na última grande ilusão perdida. A luz aplicada em cada cena lembra a de olhos marejados, lágrimas que não querem cair, até que caem e se mostram tão verdadeiramente cativantes que a beleza imperceptível dos dias mais comuns se mostra então com uma força que duvidávamos que pudesse comportar.
A sua direção “desleixada” permite enquadramentos fora de quadro porque, antes de permitir, ela é isso. Ela é as guitarras sujas dos primeiros acordes de Just Like Honey, ela é as conversas aleatórias entre seus protagonistas e seus respectivos cônjuges, e ela é também a frustração, a realização e completude de uma despedida discreta em uma rua cheia de gente.
Sofia Coppola olha triste para os humanos e suas relações, mas não hesita em registrar a absurda felicidade fruto de um verdadeiro encontro, mesmo dentro de uma vida que é cheia de incongruências.
Catando pequenos momentos nos cantos empoeirados do cotidiano, a jovem diretora (a câmera) perscruta o que há entre as pessoas, e dentro delas, e no seu entorno. Existe a solidão, e existe a inigualável sensação de sabermos que podemos sim, por mais que por alguns instantes, ser completos.
Sofia sabe que muita coisa se perde na tradução, e sabe também aquilo que quer filmar: essa beleza que se desfaz logo que é reconhecida, mas que antes disso se mostra a nós, espectadores, através do olhos de uma autora que entende que o particular é intransferível (como é latente nos sussurros de Bob no ouvido de Charlotte ao fim da projeção), mas que também se deslumbra com essas possibilidades de conseguirmos compartilhar aquilo que nos é tão pessoal. É uma dessas vezes em que um filme é verdadeiramente bonito e doloroso.

quinta-feira, 31 de julho de 2008


Alone

From childhood's hour I have not been
As others were
I have not seen
As others saw
I could not bring
My passions from a common spring
From the same source I have not taken
My sorrow
I could not awaken
My heart to joy at the same tone
And all I lov'd — I lov'd alone
Then — in my childhood — in the dawn
Of a most stormy life — was drawn
From ev'ry depth of good and ill
The mystery which binds me still
From the torrent, or the fountain
From the red cliff of the mountain
From the sun that 'round me roll'd
In its autumn tint of gold
From the lightning in the sky
As it pass'd me flying by
From the thunder, and the storm
And the cloud that took the form (When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view

Edgar Allan Poe.

Wall-e


Hoje revi Wall-e, e posso dizer que, por mais que não seja cinema, é um dos meus filmes do ano.
Sempre admirei a Pixar, sempre. O seu uso da linguagem de animação, a inteligência com que tratava o público infantil, a força criativa.
Todos esses aspectos estão presentes em todas as suas produções, mas creio que ainda assim Wall-e represente uma grande evolução para o estúdio.
Até então não havia visto uma preocupação tão ostensiva com a estética do filme. Cada quadro de Wall-e parece ter sido obscessivamente pensando e repensado até ser enfim concebido. Pode ser meio tolo falar nesses termos de uma animação, tendo em vista que todos os pertencentes a essa categoria são fruto de um trabalho exaustivo de concepção. Mas em Wall-e creio que esse esforço vá além.
Monstros S.A. já era, para mim, uma obra-prima da Pixar. Sua força não estava apenas no conteúdo interessantíssimo, mas na forma como ele era apresentado e como nós éramos apresentados para o mundo ali retratado. Wall-e faz dessa "apresentação" de um novo mundo uma verdadeira imersão. Na riqueza de nuances, dos cenários aos personagens, da trilha sonora aos "enquadramentos" (não sei se é possível utilizar esse termo quando se trata de animação), somos tragados para o mundo de Wall-e, e todas as suas implicações. Muito mais do que "passar" uma pretensa "mensagem" de "salvem o planeta", o filme tem sua verdadeira beleza na FORMA que encontra de criar (e não apenas reinterpretar) o mundo interno de um robô solitário, e de fazê-lo tão brilhantemente que o entorno é contagiado. Por mais estranho que seja falar de sentimentos de espontaneidade em um filme onde tudo foi devidamente planejado, creio ser impossível escrever sobre este longa da Pixar sem levar em consideração sua pulsante e apaixonada defesa da importância da arte, da curiosidade, da reflexão e de como tudo isso nos torna humanos. Como Carlitos, Wall-e não sabe utilizar os objetos que não no sentido de criar o belo; como Carlitos, Wall-e é solitário (também) por olhar para as coisas e enxergar além de sua função prática.
Creio que pela primeira vez vi forma e conteúdo (no caso específico das produções da Pixar) ocuparem lugar de mesma importância. Essa integração harmoniosa é, talvez, o grande motivo do filme ter me arrebatado tão completamente.
Poesia de imagens.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Sim ?

Clarice já disse.
Tudo começa com um sim. Tudo começou com um sim.
Terminaria tudo com um não?
O não tem esse poder?

Provavelmente não.

Mas é bom achar que podemos terminar as coisas que começamos. Que independemos delas. Que sem elas, fica tudo bem.
Se começou, por que precisa terminar?
Tem que terminar porque começou?

Amor.
Todo mundo só precisa de amor. Por isso tanta gente insiste em dizer que não existe.
Deve ser mais fácil do que descobrir que talvez nem todo mundo encontre.
Antes não existir do que nunca achar, certo?

Esse é um começo.