terça-feira, 4 de maio de 2010

AMOR


Por algum motivo Antes do Pôr-do-Sol não tem saído da minha mente nos últimos dias, diria mesmo últimas semanas. Creio que o correto seria dizer “por alguns motivos”. Ultimamente tenho tido uma relação algo distante com o cinema, me interesso muito mais em fazer do que em assistir, e talvez esteja nessa vontade que tenho de fazer o maior dos motivos da persistência desse filme na minha memória: Antes do Pôr-do-Sol é um dos grandes filmes da minha vida (ali, encostado com Luzes da Cidade e Annie Hall) e nunca houve um momento em que tenha me lembrado dele sem que tenha, de alguma forma, me emocionado.

Uma questão central pra mim, nos últimos tempos, quanto à crítica cinematográfica, tem sido o da validade de algumas coisas que deveriam dizer se um filme é grande ou não: o inevitável peso do talento do diretor, as relações entre a câmera e a palavra, o trabalho de atores, a capacidade e proposta narrativa, a montagem, a edição – mas o que mais tem se aproximado de uma verdade, para mim, é a defesa da obra a partir de seus méritos (nem sendo preciso compará-la a outra coisa) e de como ela faz aquilo que se propôs a fazer, seja lá o que isso queira dizer.

Entre minhas dúvidas sobre juízo de valor em relação ao cinema Antes do Pôr-do-Sol vem, como diria Nina Simone, bem a tempo. O segundo encontro de Jesse e Celine é mais que filme, é mais que obra-prima, é mais que beleza: é milagre. Um milagre que nada tem de acidental ou casual.

Na primeira sequência Jesse fala do seu livro, perguntam se é ficção ou realidade, é claro que nós sabemos a resposta, mas nos olhos de Ethan Hawke vemos que mesmo o seu personagem se lembra da magia juvenil de Antes do Amanhecer como algo quase tão bom para ser verdade, e entramos pela única vez na memória de Jesse: é Celine, linda como só mulheres bem filmadas podem ser, o único rastro da sua felicidade plena naquela noite em Viena. Voltamos para Paris com o close de Celine agora, observando Jesse, e a imagem reacende em todos (público e personagens) o sentimento dos dois jovens apaixonados.

Não existe mais o tempo.

É tão simples que não poderia deixar de ser genial: é um homem e uma mulher que não se esqueceram e que se ressentem de um desencontro tão cruel. Mas Linklater passa longe do fatalismo: o reencontro que vamos acompanhar é a revisitação (nunca a recuperação) de uma intimidade e uma plenitude que a premissa do filme faz parecer impossível, mas que as imagens tornam nada mais do que inevitável.

Na hora e meia de Jesse e Celine temos o que de melhor a delicadeza e a simplicidade no manuseio de uma câmera pode nos oferecer: a sinceridade e legitimidade de um registro que tem ternura imensurável pelo seu objeto filmado. O amor de Linklater, Delpy e Hawke pelo micro-universo criado pelos personagens em Antes do Amanhecer é a iluminação outonal daquela tarde parisiense, são os planos-sequência que parecem nunca quererem abandonar os dois, são os diálogos verdadeiros (da forma como só a ficção pode ser verdadeira), é o fade out final, é a mise-em-scéne de corpos mais linda que já pude testemunhar.

São muitos os talentos de Linklater como cineasta que fazem Antes do Pôr-do-Sol ser a experiência que é: o posicionamento perfeito de seus enquadramentos, o timing providencial de todas as cenas, a direção sobrenatural de atores.

Se nove anos atrás presenciamos duas pessoas se apaixonando, vemos agora as repercussões daquela noite, e se em Jesse isso se mostra de forma mais clara desde o início, é em Celine que diretor e atores realizam o trabalho mais minimalista e arrasador: no eternamente citado plano do carro há um tal desnudamento da personagem que a impressão imediata que me veio ao assistir a cena pela primeira vez foi a de pouquíssimas vezes ter-me sentido tão próximo a alguém – proximidade superada pelo próprio filme logo depois, pois o abraço de Jesse e Celine é como entender a definição de saudade, afeto, melancolia, amor e gratidão todos de uma vez.

Os nove anos passaram à força para os dois, na subida pelas escadas o espectador não apenas sabe disso, ele entende, ele sente, ele vive – e quando eles chegam à casa de Celine nos damos conta de que aqueles olhares ternos delicada e implacavelmente reduziram esses nove anos à nada, porque existe o mundo e existe o mundo de um casal, e Antes do Pôr-do-Sol é uma imagem exata do segundo.

Aquela coisa de uma noite deu origem a duas novas pessoas, que nunca mais se enxergaram (e, por consequência, nem ao mundo) da mesma forma. O reconforto de poder confirmar todo o alcance daquela noite no olhar do outro é intransferível e, no entanto, Linklater nos faz parte dessa sensação.

O campo/contracampo de Jesse e Celine enquanto ela toca a valsa que fez para ele É O AMOR. Linklater deixa signos, símbolos e metáforas para trás e chega na coisa, no coração de seus personagens e de seu público.
Como absorver a experiência? Como verbalizá-la? O que pode a palavra diante de tanta força imagética? O que resta a dizer sobre a frustração após Jesse contar a Celine sobre os sonhos que tem com ela frequentemente? O que falar de um homem apaixonado após o olhar de Hawke para Delpy enquanto ela dança Just in time?
Não sei o que é cinema, mas sei do que ele capaz sempre que reassisto Antes do Pôr-do-Sol.

3 comentários:

Mateus Moura disse...

lembrei do artigo do Rivette sobre o que é ser critico, o texto é intitulado "a arte de amar"... bom saber que os criticos que mais me tocam são pessoas que eu convivo.

mariana disse...

Dá uma geral nele, organiza .. que aí tu pegas gosto e não desgruda mais.
Tá bonito esse texto.
A crítica que enviaste por email passa loooonge da tua, hahaha.. bem melhor!

Se tu não entendestes, eu quis dizer que a TUA é melhor.

Sânia disse...

"I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow, in other arms
My heart will stay yours until I die"

Grande feito o deles. Para mim é o filme ideal sobre o que é o amor.